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Nick Rands - Ausência
26 Novembro - 24 Dezembro
Curadoria - Icleia Cattani

ENTRE PRESENÇA E AUSÊNCIA    

Icleia Borsa Cattani

Intitulada Ausência, essa mostra também pode ser pensada como vestígios de uma presença. Ela evidencia a possibilidade de elaboração da perda que se constrói pela e na pintura. Nela, também se constata a propriedade intrínseca da obra, de tornar-se outra coisa – de ir mais longe, de indicar caminhos e de apontar para um devir. Mergulhado na instauração de cada pintura, imerso nas suas possibilidades e demandas, Nick Rands também vai à frente e descortina novas possibilidades de prover à falta, ainda que minimamente, pelo seu trabalho.
            A exposição é constituída por mais de 70 telas de 12x12cm e de uma caixa com gravuras em edição limitada. Da totalidade das pinturas, nove formam um conjunto à parte, denominado Esperança. Nele, são representadas cerâmicas da coleção do artista: objetos modestos, valorizados e perpetuados pela pintura. Em cada pequena tela quadrada, uma única peça ocupa o centro, quase como um retrato, diferindo da maioria das pinturas de bodegones– naturezas mortas compostas por odres, jarras, garrafas, usualmente de barro – nas quais são representadas várias peças ao mesmo tempo.
            Esse conjunto iniciou pelo registro de um pote japonês que havia trincado. Tempos depois, o pote quebrou-se, restando apenas o quadro. Atribuir certo peso, preservar o frágil e o transitório pela pintura, foi o objetivo desse conjunto de obras. Nelas o artista retomou, pela primeira vez em quarenta anos, os fundamentos da sua formação escolar: pintura a óleo, observação do real, motivo elaborado diretamente na tela, sem desenhos prévios.
            O conjunto, definido numericamente, foi seguido por uma série aberta que será continuada por tempo indeterminado. Essa, que dá o título à mostra, Ausência, é também composta por pinturas a óleo, da mesma dimensão das anteriores. Ela possui, de certo modo, significado similar: resgatar e recriar os vestígios daquilo que é frágil e transitório, a vida humana.
            Elas são pinturas de detalhes de roupas – roupas reais, vestígios do ser que as habitou – sobre as quais o pintor coloca uma janela (espaço vazio recortado em papelão) do tamanho das telas e transpõe para a pintura exatamente o que se encontra no interior da mesma. Cada pintura foi realizada tendo por motivo uma vestimenta diferente, a partir de uma escolha afetiva e sem muita racionalização. Morando entre o Brasil e a França, Nick as transporta consigo. Inicialmente, cogitou usar a fotografia para substituir as peças reais, mas uma única tentativa bastou para que constatasse que o processo diferia totalmente – não transparecia nesse processo, nem presença, nem ausência, nem vestígio, mas um campo neutro.
            A ideia inicial era realizar uma única tela com cada roupa, mas agora o artista revela o desejo de retornar aos modelos já pintados para abordá-los sob outros ângulos. Trata-se, portanto, de uma série virtualmente sem fim – a própria obra indicará provavelmente sua mudança em algum momento.

 

Cada tela possui valor estético e é única. Como Nick declara, elas não são como capítulos de um livro, mas como poemas. Sua temática indica uma direção de leitura, mas não podemos ignorar, também, suas qualidades propriamente pictóricas: a agudez na representação dos detalhes, a sugestão das diferentes texturas e qualidades próprias aos tecidos, como opacidade e transparência, leveza e espessura, fluidez e rugosidade, atribuindo qualidades táteis ao representado. Do mesmo modo, importa o sentido profundo da cor como elemento pictórico.
A série como um todo possui, também, grande poder de evocação. Expostos na ordem em que foram pintados – único critério possível para dispô-los em sequência, sem trair seu sentido mais profundo – os quadros evidenciam um longo e aprofundado processo de elaboração da perda.
            Ao mesmo tempo em que prossegue na série, o artista redescobre as qualidades plásticas da pintura a óleo no que descreve como um “processo mágico” que une à pintura figurativa, pela qual sempre se sentiu atraído, embora trabalhasse anteriormente com a abstração. Declara que “ao cabo de algumas poucas pinceladas, algo já começa a se definir”.
            A tinta a óleo, a pintura de observação, a figuração, os pequenos formatos marcam uma nova etapa no seu trabalho. Antes, seu processo era quase automatizado, marcando pontos com o indicador em superfícies previamente pintadas – utilizando unicamente pigmentos feitos de terras, colhidas pelo artista, as vezes com base acrílica. Ele aproxima esse processo anterior à navegação, afirmando que o importante era saber de onde sair e onde chegar: o que acontecia no meio do caminho não necessitava muita reflexão, eram gestos automatizados que só demandavam pequenas correções de rumo.
Nas novas séries, se instauram grandes diferenças na poiética do artista e na poética das obras, em relação às precedentes. As dimensões foram radicalmente alteradas, de grandes telas que frequentemente ultrapassavam um metro quadrado, a pequenos suportes de pouco mais de dez centímetros de lado. Esse formato permite ao artista certo intimismo, promovendo uma “boa distância” do olhar, em que não necessita se afastar para apreender o todo, nem se aproximar para executar os detalhes.
As impressões Fragmentos de Ausência, por sua vez, embora se refiram às pinturas da série Ausência, apresentam diferenças marcantes em relação a essas. No mesmo número das pinturas, impressos em papéis da mesma dimensão daquelas, são impressões em jato de tinta, acomodadas em caixas. Cada gravura possui uma relação direta com a pintura correspondente. Todavia, ela é feita a partir de uma janela menor, colocada sobre a tela para extrair um pequeno trecho da mesma: janela da janela, detalhe do detalhe, cada gravura apresenta-se quase abstrata.
Talvez motivado por essa experiência, o artista revela o desejo de pintar telas cada vez menores: mergulhor do objeto real que serve de modelo? Ou outra coisa, algo novo, ainda não feito? Só o próprio trabalho, guiando e sendo guiado pela mão do artista, poderá trazer as respostas.


Nick Rands
Ausência
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Ausência

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Ausência
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Ausência

Nick Rands
Ausência Remontada

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Ausência Remontada
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Ausência Remontada

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Ausência Remontada
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Ausência Remontada
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Ausência Remontada
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Ausência Remontada
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Ausência Remontada
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Ausência Remontada
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Ausência Remontada